terça-feira, 24 de julho de 2012
quinta-feira, 28 de junho de 2012
Anuviado.
Olhou-se no espelho e encarou-se por um longo tempo. Tentando sorrir, mas sem êxito. Os dentes cerravam e os lábios uniam-se. Lá estava seu reflexo nu dentro do vidro. Levantou uma das pernas o mais alto que conseguia, mas perdeu o equilíbrio segundos depois. Infectou seu estômago com algo podre que comera na esquina e emagrecera 5 quilos. Sua magreza refletia seu interior. Como ser tão ignorante? A sua nudez não o incomodava mais, já fora o tempo que a insegurança perante o seu corpo o confundia. Mesmo assim questionou-se sobre o material que revestia seu esqueleto. Os músculos sumiram e só restou uma pele composta por células de dúvida. Aproximou seu rosto ao espelho e tentou um novo sorriso, mas pegou-se olhando para seus próprios olhos. Eram negros e estranhos, assim como sua pessoa. As tímidas olheiras tornavam-se visíveis. Quem tem pouca olheira é um péssimo observador? Encostou as mãos no espelho e sujou o próprio reflexo. Desenhou dois olhos e uma boca que gritava. Gritava mas não se ouvia nada. Bateu no vidro de leve e perguntou-se se no mundo de dentro do espelho eles ouviriam o grito. Daí grudou toda a face contra o vidro, esfregando a pele sebosa, espalhando marcas e silhuetas por toda parte. Quis mais. Esfregou todo o corpo ao longo do espelho. Fazia isso de olhos arregalados e via-se do outro lado do mundo como uma serpente que recebia um eletrochoque e rebatia-se contra o chão. Ficara repentinamente excitado, os músculos retesaram-se. Silhuetas disformes, perfis caleidoscópicos, mãos sinistramente alongadas, rastros de suor e líquido escorriam. Afastou-se finalmente e encarou o resultado da catarse. O vidro metalizado que antes dava em troca o reflexo perfeito estava coberto por suor e gordura corporal. Não conseguia identificar-se mais. A não ser os pés que refletiam-se na parte inferior, menos suja do espelho. Ele se aproximou e passou a mão suja em todas as partes ainda desanuviadas. Pronto. Agora isso reflete a realidade.
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| Monet me anuvia. (Yhuri Cruz + Bahnhof Saint Lazare in Paris, de Monet) |
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sexta-feira, 15 de junho de 2012
Assim é se lhe parece.
Hão de chiar, os outros. Afinal, esse é o papel deles. A platéia sempre aplaude no fim da peça, mesmo quando não entende uma palavra do roteiro. É a beleza do teatro: a intimidade fictícia. Ficamos expostos ao texto de forma tão íntima, mas ao mesmo tempo, o que sabemos perto dos próprios dramaturgos? O que sabemos sobre o processo de ensaios da companhia? Achamos que temos controle sobre o que vimos, quando nem ao menos notamos o gesto despercebido que é repleto de significado. Mas os outros hão de chiar. Assim, pensem o que quiserem, os outros. Como já dizia o grande Pirandello: assim é se lhe parece.
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domingo, 10 de junho de 2012
Faíscas.
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| Faísca. (Ilustração: Yhuri Cruz) |
- Eu realmente não sei como nos conhecemos, você lembra? Quando vi, já éramos amores. E agora, estamos nesse parque. O tempo cega os olhos. Será que perdemos de vista tudo que explica nossa jornada?
- Não seja exagerado. Eu sei exatamente como cheguei aqui, neste momento, neste parque, neste domingo. Eu conheço todos os sacrifícios que fiz para ter esse domingo e para ter você.
- Não estou sendo exagerado. Claro que sei como tudo aconteceu. Só que nada aconteceu por que você quis. Entende? O tempo e o acaso são quem decidem. E ao mesmo tempo, quando damos conta disso, percebemos que não temos controle das nossas próprias vidas.
- (...).
A mulher ficou calada por minutos inteiros. O céu parecia um quadro de fundo azul pintado com delicadeza de tons de branco e cinza. Cada vez mais a tinta azul ia dando espaço a um relevo enevoado, misturado a tons pastéis rosa, amarelo, e lilás. O homem sentiu um incômodo e perguntou:
- Tudo bem?
- Só me pergunto se toda nossa relação aconteceu por culpa do tempo e do acaso ou se você possui uma parcela dessa decisão.
- Não seja boba. Não falo da gente, mas da vida.
- E qual a diferença? Não sou boba. Você é um homem que não tem controle sobre seus próprios atos? Isso me soa tão covarde. Você não pode simplesmente culpar o acaso de você ter chegado aqui, neste parque. Isso torna toda a humanidade gado de Deus ou seja lá o que for. O ser humano não possui autonomia?
Um silêncio incômodo deitou entre o casal e fez soprar um vento quente. De repente um clarão se fez no horizonte, acompanhado de um som estrondante que fez o casal levantar-se. O céu por segundos tornou-se vermelho e a pintura uma vez de tons frios, tornou-se latina e quente. Uma fumaça negra subia por trás de um bosque do parque e o casal se perguntava o que havia explodido.
De dentro do bosque um homem vinha correndo com duas crianças. Carregava-as pelos braços, penduradas, flutuando violentamente pelo ar. Estavam visivelmente machucadas e, pelo balançar desumano de seus pés, estavam mortas. Vinha gritando:
- Foi só uma faísca, eu juro, foi só uma faísca!
O casal descobriu que um isqueiro nas mãos de uma das crianças havia feito explodir algum duto de gás perto do parque. A mulher chorava ao ver os pequenos inofensivos mortos e perguntou ao seu companheiro:
- Isso soa como acaso para você? Isso pra mim é uma decisão. Não de Deus ou do tempo, mas de um pai que pensa que um isqueiro é brinquedo, só porque brinca com a própria saúde e fuma até o pulmão apodrecer.
- Cala a boca. Você está certa. Cala a boca e vamos embora.
O céu ficou negro por um dia inteiro, depois voltou ao seu modo natural, sujeito ao clima e às estações. O parque ficou fechado por cerca de um mês devido ao acidente.
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Eu procuro não proliferar esses tipos de pensamentos, mas assim como o fogo foi descoberto há milhares de anos, uma mínima chama de descrença aparece de súbito, surpreende o escuro e queima lenta dentro do corpo sóbrio. Essa chama tímida pode fazer tudo mudar.
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sexta-feira, 4 de maio de 2012
Angústia.
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| Encarando o Negativo. (Yhuri Cruz + Jackson Pollack de fundo) |
Aqui estão uns trechos:
"A angústia é o encontro com o nada. É se deparar com o abismo. É a necessidade de seguir em direção ao salto, imprevisível e inexplicável, mas a única saída do homem encontrar as possibilidades da existência. Não encontramos angústia no ser bruto, no ser sem espírito. A angústia é o encontro com o divino." (KIERKEGAARD)
"A angústia 'corta' a palavra. Quando palavras sem nexo são ditas para cortar o silêncio, isso é a manifestação da presença do nada."
"Todas as organizações sociais não passam de formações defensivas contra a angústia." (HEIDEGGER)
"A angústia é um pré-sentimento. ela é o estranho, o exílio pré momento da revelação." (LACAN)
"A angústia é o fruto da consciência de responsabilidade diante as escolhas do mundo." (SARTRE)
* A ilustração é minha, mas o fundo abstrato é do famoso pintor, referência do expressionismo abstrato, Jackson Pollack.
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segunda-feira, 30 de abril de 2012
segunda-feira, 23 de abril de 2012
Samsa.
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| Eu em fúria. (Ilustração de Yhuri Cruz: aquarela) |
- Por quê? - questionei-me e ao mundo. - Agora que me tornei o que eu realmente sou!
¹ Personagem do conto A metamorfose, de Franz Kafka.
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